Apresentação Afetiva
Por Fabiano Moraes *
Era uma vez uma menina Benita...
- E o Laço de Fita? - vocês vão perguntar.
Ah, a vida lhe deu de presente um véu dourado que ela até hoje ostenta.
Se a sua língua materna é o português, a paterna, com certeza, é o espanhol.
Lamas Gonzalez de nascença, Benita, tempos depois, concentrou a força hispânica de seus antepassados num novo sobrenome: Prieto, com o qual passou a ser conhecida por todo o mundo.
E em meio aos livros e palavras que a cercavam na infância, "lá estava ela, sentada numa tarde morna de verão lendo gibis. O sono deixava a menina naquele estado de agradável torpor. Tanto que ela já não sabia mais o que lia, ouvia ou sonhava..." Aliás, a Benita menina nem sonhava que aquele instante fugaz seria um dia sua mais tenra lembrança, sua imagem mais antiga de que se lembraria. Naquele momento nascia o que hoje para ela é um estandarte: A memória.
Pois a memória da menina mais tarde prestou seus serviços nas tantas fórmulas e equações de sua graduação em Engenharia Eletrônica.
E lá vem outra pergunta:
- Como é que é? Engenharia Eletrônica?
É que vocês não têm idéia de que é preciso muito, mas muito engenho e energia, pra não dizer que às vezes precisar mesmo é ficar elétrica, para ousar tanto quanto Benita ousou.
E foi com a engenhosidade de sua produção e a energia de sua arte, como atriz e artista da palavra, que Benita escreveu belas páginas na história da Literatura Infantil e da Arte de Contar Histórias no Brasil e no exterior.
Tudo começou num tempo em que contar histórias profissionalmente era visto como coisa de outro planeta.
Seu mestre? Nada menos que Fernando Lébeis.
Aliás, Benita, (nesta apresentação informal e afetiva não teremos como esconder) faz parte da restrita, secreta, recatada, reservada e seleta confraria das "Viúvas de Lébeis". Grande Lébeis!!! Que Deus o tenha! (sinal da cruz).
Num desses presentes que a vida costuma trazer, surgiram os encontros com os cavaleiros andantes Eliana Yunes, Celso Sisto e Lúcia Fidalgo. Pessoas especiais por quem Benita nutriu um carinho e uma amizade especiais. Assim nasceu o grupo Morandubetá, nutrindo o sonho de ajudar no processo de transformação da sociedade através da narração oral.
Agora imaginem só: Proler + livros + histórias + contadores.
Estes ingredientes, utilizados em doses exatas por ela e por outros tantos nobres precursores deste movimento, disseminaram nossa arte na direção dos quatro ventos.
Daí pra frente aconteceu muita coisa, gente!! Tanta, que, se eu continuar a contar, mesmo que só fale a metade do que ela fez, de uma maneira bem resumida, vocês vão querer me bater. Por que aí não vai sobrar tempo de vocês escutarem a fala da Benita na nossa mesa temática.
Então fica assim: só pra lembrar: Benita foi debatedora do programa "Sem Censura" da TVE, desde 2003. Já produziu incontáveis eventos em diversas cidades do Brasil, dentre eles o "Simpósio Internacional de Contadores de Histórias", que acontece todos os anos no Rio, desde 2002, ininterruptamente. Produziu o documentário "Histórias" que já viajou o mundo, escreveu artigos e contos, publicou livros, recebeu o Prêmio Internacional "Cont´Arte", em Ciudad de la Habana, Cuba, pela sua trajetória em prol da nossa arte. Viajou por vários países contando histórias, dentre eles Portugal, Espanha, Colômbia, Moçambique, Venezuela, Cuba, Marrocos, além de trazer, todos os anos, grandes contadores de histórias estrangeiros ao Brasil.
Benita é, de fato, com a sua palavra e suas ações, um precioso elo que nos une aos nossos antepassados e contemporâneos através das histórias.
* Fabiano Moraes é contador de histórias, escritor e idealizou o site www.rodadehistorias.com.br. Escreveu essa apresentação para o evento Boca do Céu 2008.